quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011 0 comentários By: Fredolento

AMIZADE; conseguimos viver sozinhos?

 O QUE NOS TORNOU AMIGOS


 Pura, sincera, desinteressada. A amizade não nasceu assim. Mas um improviso do cérebro mudou tudo: criou um novo tipo de relação, que revolucionou a convivência entre as pessoas - e fez a humanidade ser o que é hoje.


 Tudo começou por puro interesse. Quando os primeiros macacos se tornaram amigos, aos outros em lutas contra rivais, no caso dos machos, e cuidar ,melhor dos filhotes, no caso das fêmeas. A amizade não passava de uma troca de favores. Agora pense nos dias de hoje: com você e seus amigos, não é assim. Você tem amigos simplesmente porque gosta de estar na companhia deles, certo? Errado. Você continua fazendo amizades por puro interesse - no caso, alimentar o seu cérebro com uma substância chamada ocitocina.
 A ocitocina é responsável pelo afeto que a fêmea desenvolve pelo macho, e pelo amor incondicional que ela tel pelos seus filhos. Ou seja: é a ocitocina que fez, que faz, a espécie se reproduzir com sucesso.
 Em algum momento da Pré-História, a relação com estranho passou ser necessária.
 Expêriencias feitas na Universidade da Califórnia comprovaram que, quando você conhece uma pessoa que lhe pareça confiável, o nível de ocitocina no seu cérebro aumenta. Isso faz com que aquela pessoa. Ou seja: graças à ocitocina, o cérebro aprendeu a transformar algo que era necessário à sobrevivência - a cooperação - em prazer.
 A amizade afeta os sexos de maneira diferentes. As mulheres produzem mais ocitocina do que os homens. E isso faz com que seu cérebro se organize para ter amizades profundas. Existe amizade entre homens e mulheres(sem envolver sexo)? Existe e não existe. Por um lado, a origem desse sentimento é inegavelmente sexual. A amizade entre homens e mulheres nasceu para facilitar a reprodução e a  criação dos filhotes. E ela é alimentada pela ocitocina - que é liberada durante o sexo. Por outro lado, a evolução nos tornou capazes de separar as coisas. Isso porque, quando a ocitocina adquiriu sua função social (facilitar a aliança entre pessoas do mesmo sexo), o cérebro humano também mudou. Ele ganhou muito mais receptores de ocitocina, que foram se espalhando por várias regiões cerebrais - inclusive com aquelas que não tem nada aver com os desejos sexual. Por isso, a ocitocina que é liberada quando você está com amigos (seja do mesmo sexo, seja oposto) não produz o mesmo efeito do que a ocitocina que é liberada quando você está namorando ou fazendo sexo. É diferente.
 Ter amigos só traz benefícios. Quanto mais, melhor. Mas há um limite. Um estudo feito na Universidade de Oxford comparou o tamanho do cérebro humano, mais precisamente do neocórtex ( área responsável pelo pensamento conciente), com o de outros primatas. Ele cruzou essas informações com dados sobre a organização social de cada uma das espécies ao longo do tempo. E chegou a conclusão reveladora: 150 é o maximo de amigos que uma pessoa consegue ter ao mesmo tempo.
 Para que você mantenha uma amizade com alguém, precisa memorizar informações sobre aquela pessoa (desde o nome até pequenos detalhes da personalidade dela). Por algum motivo, o cérebro não comporta dados sobre mais de 150 pessoas. Os relacionamentos que extrapolam esse número são inevitavelmente mais casuais. Não são amizades.Fazer amigos é um instinto mais forte que você.


  A COISA MAIS IMPORTANTE DA VIDA

  Os amigos são o principal indicador de bem-estar na vida de alguém. Ter laços fortes de amizade aumenta nossa vida em até 10 anos e previne uma série de doenças. Pessoas com mais de 70 anos têm 22% mais de chance de chegar aos 80 se mantiverem relações de amizades fortes e ativas - e ter amigos ajuda mais nisso do que ter contato com familiares. Existe até uma quantidade mínima de amigos para que você fique menos vulnerável a doenças, segundo pesquisadores da Universidade Duke.Quatro.Gente com menos de 4 amigos tem risco dobrado de doenças cardíacas, reduz os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea, o que diminui a probabilidade de ataques cardíacos e derrames. E pesquisas feitas nos EUA constataram que a ocitocina também aumenta os níveis no sangue de interleucina, componente do sistema imunológico que combate as infecções.
 Se as amizades forem novas é ainda bem melhor. A ocitocina dá impulso inicial às relações e, depois de algum tempo, cede o lugar para o sistema memória, que age mais rápido. Há estudos comprovando que amigos antigos não estimulam a liberação de ocitocina (a não ser quando você os reencontra depois de muito tempo longe).
 Uma pesquisa da Universidade de Princeton revelou que as pessoas consideram seu tempo com os amigos mais agradável e importante do que o tempo gasto com a família. O dinheiro que você ganha no trabalho, durante o tempo em que não está com os amigos, tampouco compensam a falta deles.
 O economista Andrew Oswald, da Universidade de Warwick, criou uma fórmula para calcular quanto dinheiro seria preciso ter para compensar a falta de amigos e chegou a conclusão: ganhar um amigo equivale a receber R$ 134 mil a mais no salário anual. Peça isso de aumento na próxima vez em que você tiver que fazer hora extra e não poder encontrar seus amigos no bar. Ou então, faça mais amigos no próprio trabalho. Quem tem um amigo no trabalho se sente 7 vezes mais envolvido com o que faz, 50 % mais satisfeito e até duas vezes mais contente como pagamento que recebe.
 Os sociólogos Nicholas Christakis e James Fowler perceberam que vários dos principais comportamentos humanos se espalham pelas nossas redes como se fossem um vírus, tendo os amigos como transmissores. Quando uma pessoa se torna obesa, seus amigos têm 45% mais risco de engordar. Amigos de amigos também poder ser afetados. Uma pessoa tem 20% mais probabilidade de ficar obesa se um amigo do seu amigo ficar, e 10% de risco se isso acontecer com o amigo de um amigo de um amigo. Nós imitamos inconsciente alguns gestos e atitudes das pessoas ao nosso redor.
 Se isso significa que amigos trazem felicidade, também podem aumentar suas chances de entrar numa depressão. Sabe aquelas pessoas que estão sempre demal, reclamando, e parecem sugar a energia das pessoas em volta? Cada amigo triste, segundo as equações de Christakis e Fowler, coloca você 7% mais para baixo. Mas a felicidade, felizmente, é muito mais potente: ter um amigo contente aumenta a sua chance de ficar feliz em 15,3% - e, a partir dele, cada pessoa alegre contribui com mais 9,8%.


COMO A INTERNTE ESTÁ MUDANDO A AMIZADE

 Qual é a primeira coisa que faz quando entra na internet? Checa o e-mail, dá uma olhadinha no Twitter, confere as atualizações dos seus contatos no Orkut ou Facebook? Há diversos estudos comprovando que interagir com outra  pessoas,principalmente com amigos, é o que mais fazemos na internet.
 Uma pesquisa feita pela Universidade de Toronto constatou que a internet faz você ter mais amigos - dentro e fora da rede.
 E os chamados heavy users, que passam mais tempo na internet, foram os que ganharam mais amigos no mundo real - 38% mais. Já quem não usava a internet ampliou suas amizades em apenas 4,6%.
 As redes sociais têm o poder de transformar os chamados elos latentes (pessoas que frequentam o mesmo ambiente social que você,mas não são suas amigas) em elos fracos uma forma superficial de amizade.
 Os sites sociais como Orkut e Facebook tornam mais fácil fazer, manter e gerenciar amigos. Mas também influem no desenvolvimento das relações - pois as possibilidades de interagir com outras pessoas são limitadas pelas ferramentas que os sites oferecem. "Você entra nas redes sociais e faz o que elas querem que você faça: escrever uma mensagem, mandar um link, cutucar", diz o físico e especialista em redes Augusto de Franco, que já escreveu mais de 20 livros sobre o tema.
 No Twitter, eu posso te seguir sem que você tenha que autorizar isso, ou me seguir de volta. É uma rede social completamente assimétrica.
 É o seguinte. Eu posso me interessar pelo que você tem a dizer e começar a te seguir. Nós não nos conhecemos. Mas você saberá quando eu o retuitar ou mencionar seu nome no site, e poderá falar comigo. Meus seguidores também podem se interessar pelos seus tuítes e começar a seguir você. Os seus seguidores podem ter curiosidade sobre mim e entrar na conversa que estamos tendo. Em suma: nós continuaremos não nos conhecendo, mas as pessoas que estão a nossa volta estabelecem vários níveis de interação - e podem até mesmo virar amigas entre si.
 Um estudo está sendo realizado na Universidade da Califórnia começou a desvendar que efeito que as redes sociais produzem no organismo. Os primeiros resultados mostraram que tuítar estimula a liberação desse hormônio, e consequentemente  diminui os níveis de hormônios como cortisol e ACTH, associados ao estresse.
 Isso significa que o cérebro pode ter desenvolvido uma nova maneira de interpretar as conversas no Twitter. "O cérebro entende a conexão eletrônica como se fosse um contato presencial", diz Paul Zak. Isso seria uma adaptação evolutiva ao uso da internet. "O sistema de ocitocina está sempre se ajustando ao ambiente em que você está", diz. "Pode ser que, de tanto interagir em redes sociais, as pessoas estejam se tornando mais sintonizadas para a amizade.


 Fontes: How Many Friends Does one person Need? Robin Dunbar, Harvard University Press, 2010.
                  Vital Friends, Tom Rath, Gallup Press, 2006.
                  Seis Graus de Separação, Duncan Watts, Leopardo Editora, 2009.
                 O Poder das Conexões, Nicholas Christakis, Editora Campus, 2009.